Querida Manta de Manabí


     Conhecida como La puerta del pacífico por ser um dos principais portos do país, a cidade de Manta tem mais de duzentos mil habitantes, o que converte a cidade como a sétima mais povoada do país. Manta se sustenta com as vendas de peixes, principalmente o Atum. Barcos de pesca se amontoam na água, uns indo outros vindo, trazendo os mais variados peixes como las albacoras, atunes, caritas e outros que para ser sincero, não recordo os nomes. Playita Mía o é melhor lugar para se comprar os peixes, eles chegam fresquinhos e baratos, é uma praia que fica em Tarqui, não é uma praia turística, mas tem o comércio. Quando se compra os pescados, alguns homens se aproximam oferecendo-se para limpar os peixes, eles cobram não mais de um ou dois dólares. Ao menos eu e minha esposa íamos pela manhã comprar e levávamos para desjejuar em casa. As manabitas mais conhecidas como manabas são mulheres guerreiras e firmes. Antes de escrever tudo isso cheguei a escrever sobre elas e suas famílias:

“Lugar de pescadores que se vão e ficam por meses e mais meses na imensidão do oceano pacífico atrás do sustento para suas famílias que ficam em suas casas de tijolo a vista. Enquanto a mãe batalhadora está no calor do seu lar descascando plátanos para a merenda dos seus filhos que estão descalços e suados, com a camiseta do Barcelona de Guayaquil ou do Emelec equipo elétrico, jogando bola na rua. Uma esposa que não sabe se ao certo seu esposo regressará, tendo em vista o perigo constante que ele está sujeito no mar. Se ele volta, talvez fique em casa ou talvez não. Talvez fique nos bares perdido na imensidão da embriagues, até terminar o dinheiro, tempo suficiente para retornar ao mar. Enquanto isso as crianças estão sonhando. Um jogador? Talvez não seja uma má ideia porque são mui ‘parecidinhos’ com os brasileiros que, se depender deles, até dormem com a bola. Tomara que seja a bola e não a arma do crime. Infelizmente muitos vão para o lado errado, mas existe uma esperança, aquela que foi lançada através da Palavra de vida e que não volta vazia. Diante da longa e grande província, com sua imensidão de mar e campos, cheiro de peixe e nas manhãs o encebollado com chifle, sim, diante dessa terra existe vida, amor e hospitalidade. Existe uma manaba encarando as circunstâncias da vida. Existe um manaba simples com as mãos calejadas e o suor caindo pela testa encarando as lutas diárias. Povo trabalhador, cinco da manhã já estão no batente depois de comer os patacones quentes. Nas noites arroz com la menestra ao som das salsas ou cumbias. Desastres, terremotos e governos maus não lograram sacar o brilho dos seus olhos. A cada amanhecer uma nova oportunidade, a cada anoitecer um novo agradecimento. Povo forte e valente, continuem firmes! Que Deus abençoe essa terra.”

     Admira-se quem se depara com os manabas, admirado também ficará com os corviches com tempero picante, os ceviches, as conchas asadas, o caldo de salchicha, o pastel de plátano e tantas outras culinárias que a princípio pode parecer estranha, mais depois que o paladar se acostumar ninguém segura.
     Chegando em Manta, me levaram diretamente para casa que ficava num bairro chamado Monterrey. Ainda não imaginava que meus próximos sete anos seriam neste país, não imaginaria que encontraria minha esposa nesta cidade, e muito menos que meu filho nascera ali. Mesmo tendo estudado o espanhol tinha dificuldades de me comunicar no princípio, visto que cada país hispano tem seus sotaques e gírias próprias. Pouco a pouco fui me acostumando com as comidas e para ser sincero, no princípio não me agradou tanto. Hoje, morando no Brasil tenho que pedir para a minha esposa preparar às culinárias que eu, no princípio não gostava. Pouco a pouco consegui interiorizar o Equador que demorou para entrar. Fui como missionário, mas nos primeiros dias a minha parte humana sobressaía. O que esperar de um jovem de vinte anos com tamanha responsabilidade? Não tinha nenhum mantenedor sequer, era uma loucura ir a outro país sem saber como seria. A única coisa que possuía era a palavra de que teria uma casa para morar e comida para comer, melhor, e isso foi o que não faltou. A paixão pelo chamado e pelo convite foi maior. No ano anterior estava num seminário onde vivi por dois anos. Em todo esse tempo não pensava em outra coisa que não fosse o chamado missionário. Além da igreja que estávamos implantando tive o privilégio de conhecer um bairro necessitado, mas cheio de corações e amor.

Las Jacuatas

     Fomos em carro, a estrada passou a ser de terra, muita poeira. Casas de bambus e palhas, por fim chegamos nas Jacuatas. Naquele momento jamais poderia imaginar que aquele lugar entraria em minha vida de tal forma em que afirmo com vigor de que uma parte de mim ficou lá. Conheci don Gabriel, um senhor idoso, tomado pelas enfermidades que o assolava, não tinha parte de uma perna, mal conseguia falar, e quase não podia movimentar seu braço direito devido ao derrame. Se fosse outro, talvez estaria murmurando ou reclamando da vida, mas ele não. Foi um privilégio tê-lo conhecido. Sempre íamos visitá-lo, ele se alegrava, orávamos juntos, líamos a bíblia para ele. Quando tínhamos reunião de cultos em casa, pegávamos um carro e nos dirigíamos até a casa dele para levá-lo. Não era fácil, pois tínhamos que pegá-lo pelos braços e colocá-lo dentro do carro. Percebia-se que ele amava a Deus. Vida sofrida, tendo que usar fraudas, mas posso afirmar que foi Deus quem colocou ele em nossas vidas. Anos mais tarde quando eu já estava casado e fazíamos um trabalho com as crianças do bairro, ele também ia junto, feliz, eu empurrava com dificuldade a cadeira de rodas dele, pelos morros de terra. Mas todo sacrifício valia a pena. Anos depois, eu já no Brasil, recebo a notícia de que ele veio a falecer. Junto com a tristeza vem o alívio, um alívio carregado de esperança. A morte deve ser tomada com esperança. C. S. Lewis disse:

Se encontro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é a de que fui criado para um outro mundo”

Entendemos a morte quando interiorizamos a grande verdade de que nossa morada não é aqui. A maior esperança do cristão é a vida eterna. Lugar onde não haverá dores, doenças, tristezas, angústias e tudo aquilo que possa nos aterrorizar. Estaremos em nossa pátria, lugar de descanso, onde teremos um corpo revestido, incorruptível. O poeta e salmista disse:

“Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” Salmos 116:15
Muitos ajuntam tantos tesouros na terra, onde a traça corrói, mais Jesus disse:

“Não ajuntem riquezas aqui na terra, onde as traças e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e roubam.” Mateus 6:19

Jó compara a nossa vida com a flor:

O homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação. Nasce como a flor e murcha; foge como a sombra e não permanece... Jó 14:1-2

Um dos maiores filósofos cristãos de todos os tempos, Agostinho de Hipona, expressou seu desejo de estar com o Criador:

Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti.

     Há um lugar muito melhor que riquezas e bens materiais. Com don Gabriel aprendemos muito. E sem dúvida é um exemplo de coração puro e sincero diante do nosso criador.     

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